- Titular
- Eduardo Nuno Rodrigues e Pinheiro
- Empresa
- Território XXI, Unipessoal Lda.
Secretário de Estado do Planeamento durante dois anos, enquanto a sua consultora de planeamento territorial ganhava €1,29 milhões em contratos públicos
Entre março de 2022 e abril de 2024, Eduardo Nuno Rodrigues e Pinheiro foi Secretário de Estado do Planeamento no XXIII Governo. No mesmo período, a Território XXI, Unipessoal Lda. — consultora de planeamento territorial de que é sócio único — foi adjudicatária de 35 contratos públicos no valor total de €1 286 034.
Números essenciais
124 contratos · 59 adjudicantes distintos · 2016–2026
63 contratos enquanto Sec. Estado da Mobilidade (2019–22) e do Planeamento (2022–24)
32 contratos com municípios, abril 2024 – abril 2026, mesmo objeto (PDMs, REN, AAE)
Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas · 5 contratos
Cônjuge com participação adicional de 65% numa empresa relacionada
Registo
Eduardo Nuno Rodrigues e Pinheiro é deputado do Partido Socialista desde a XIV Legislatura (2019) e foi membro do Governo em duas pastas consecutivas: Secretário de Estado da Mobilidade no Governo de António Costa II (outubro 2019 – março 2022) e Secretário de Estado do Planeamento no Governo de António Costa III (março 2022 – abril 2024). Regressou ao Parlamento após a queda do Governo em 2024.
É sócio único, com capital social declarado de €500 000, da Território XXI, Unipessoal Lda., uma consultora cuja atividade comercial — identificável pelo objeto dos contratos que celebrou — se concentra na elaboração e revisão de Planos Diretores Municipais, planos de urbanização, estudos de caracterização da paisagem e planos de gestão de áreas naturais protegidas. A empresa é cliente recorrente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), ao qual presta serviços de planeamento de áreas classificadas desde 2017.
Os contratos distribuem-se por três modalidades: Concurso Público (10 contratos, €1 643 906), Consulta Prévia (39 contratos, €1 488 299) e Ajuste Direto Regime Geral (75 contratos, €1 559 150). Os dois maiores contratos individuais são Concursos Públicos adjudicados pelo ICNF antes da sua entrada no Governo: €576 000 em 2017 e €370 000 em 2019. Durante os cinco anos em que exerceu funções executivas, a empresa ganhou 63 contratos no valor de €2 164 283 — 46% do volume total desde 2016. O grosso numérico veio de revisões de PDM contratadas por municípios (Covilhã, Alcácer do Sal, Bragança, Gouveia, Tondela, Vila do Conde, entre outros); o grosso do valor, de contratos com o ICNF.
Após deixar o Governo a 1 de abril de 2024 e retomar funções de deputado do Partido Socialista, a Território XXI manteve-se em atividade contratual com o Estado: entre 15 de abril de 2024 e 16 de abril de 2026, foi adjudicatária de 32 contratos no valor agregado de €752 945, todos com municípios e a generalidade por Ajuste Direto ou Consulta Prévia. O objeto destes contratos replica o padrão setorial pré-existente — revisão de Planos Diretores Municipais, delimitação de Reserva Ecológica Nacional, avaliação ambiental estratégica e estudos de ordenamento territorial. O contrato mais recente é de 16 de abril de 2026, com o Município do Barreiro (€19 975), para revisão de relatório de avaliação ambiental estratégica no âmbito da revisão do PDM do concelho.
A observação factual central deste registo é a sobreposição temporal entre a tutela política (Mobilidade, depois Planeamento) e o objeto dos contratos (revisão de PDMs, gestão de áreas protegidas, planeamento urbano). Nada nos dados públicos indica intervenção direta do titular em qualquer adjudicação à Território XXI. Os procedimentos são maioritariamente concursos e consultas prévias, com pluralidade de concorrentes. O que este documento regista é a coexistência, durante um mandato governamental, de um interesse declarado com a pasta ministerial do mesmo setor — uma configuração que, independentemente do juízo sobre cada contrato individual, merece escrutínio por parte de jornalistas, da Entidade para a Transparência e das autoridades competentes.
Cronologia
- Primeiro contrato Território XXI (Mun. de Tondela, €69 000)
- ICNF: €576 000 para 20 planos de gestão de habitats naturais
- ICNF: €370 000 para plano do Complexo do Açor/Serra da Estrela
- Toma posse como Secretário de Estado da Mobilidade
- Transita para Secretário de Estado do Planeamento
- Mun. da Covilhã: €145 000 para revisão do PDM
- ICNF: três contratos totalizando €278 000 (planos de ordenamento)
- Mun. Alcácer do Sal: €120 000 para revisão de Plano de Urbanização (20 dias antes de deixar o Governo)
- Deixa o Governo · Regressa à Assembleia da República como deputado
Contratos anotados
Os contratos que, pelo calendário ou pelo valor, sustentam o registo acima. Links ligam à ficha do contrato no Portal BASE.
Elaboração de vinte planos de gestão de Habitats naturais, da fauna e da flora selvagens, que incidem sobre sítios de importância comunitária, no âmbito da Diretiva Habitats (Operação POSEUR-03-2215-FC-000005)
Nota: Maior contrato individual. Concurso Público pré-governo: ICNF contratou 20 planos de gestão de habitats naturais por €576 000.
Lote 3 - Complexo do Açor, Serra da Estrela, Alvão/Marão, Montemuro, Montesinho/Nogueira, Peneda/Gerês, Carregal do Sal, Serra da Lousã, Gardunha, Cambarinho, Morais, Romeu, Samil
Nota: Segundo maior (€370 000). Adjudicado 4 meses antes da posse como Sec. Estado da Mobilidade.
Concurso Público para a elaboração da proposta da Revisão do Plano Diretor Municipal da Covilhã
Nota: €145 000 da Covilhã para revisão do PDM — 2 meses depois de ter assumido a pasta de Planeamento.
Aquisição de serviços para apoio à recondução de 20 planos de ordenamento de áreas protegidas
Nota: Três contratos simultâneos do ICNF em 17-10-2023 totalizam €278 000 durante a sua pasta.
AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS DESTINADOS À ELABORAÇÃO DA REVISÃO DO PLANO DE URBANIZAÇÃO DA COMPORTA
Nota: €120 000 de Alcácer do Sal para revisão do Plano de Urbanização, assinado 20 dias antes de deixar o Governo.
Linhas por verificar
Pistas concretas que este registo não resolve mas que merecem investigação complementar por jornalistas, pela Entidade para a Transparência ou por autoridades competentes.
- Obter as atas do Conselho de Ministros em que constem deliberações que afetem o ICNF ou municípios adjudicantes durante o mandato do titular na pasta do Planeamento (2022-03 a 2024-04). em aberto
- Cruzar nomes dos decisores nos processos de adjudicação (diretores dos municípios adjudicantes, presidente do ICNF no período) com a rede declarada do titular. em aberto
- Verificar se o Secretário de Estado do Planeamento tutelava, direta ou indiretamente, decisões do ICNF — o ICNF foi tutelado pelo Ministério do Ambiente e Ação Climática no XXIII Governo, não pelo Planeamento, mas temas transversais (fundos PRR para habitação, PDMs) podem ter atravessado a pasta. em aberto
- Solicitar à Entidade para a Transparência a declaração completa (incluindo rendimentos) via requerimento fundamentado ao abrigo da Lei 52/2019. em aberto
- Confirmar se o titular apresentou pedidos formais de impedimento ou escusa (Código do Procedimento Administrativo, art. 69.º e seguintes) em processos que afetassem planeamento territorial durante o mandato. em aberto
- Investigar a empresa relacionada em que o cônjuge detém 65% (designada nas declarações como 'Território XXI, Lda.' — com NIF distinto do da unipessoal) e se recebeu contratos públicos durante o mesmo período. em aberto
Fontes
- https://entidadetransparencia.pt/titularidades/holder-6025/declaracoes
- https://dados.gov.pt/pt/datasets/contratos-publicos-portal-base-impic-contratos-de-2012-a-2026/
- https://www.base.gov.pt/Base4
- https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Biografia.aspx?BID=16853
Este documento apresenta factos oficiais: declarações públicas do titular na Entidade para a Transparência (entidadetransparencia.pt) e contratos públicos no Portal BASE (base.gov.pt / dados.gov.pt). A existência de sobreposição entre os factos declarados e os contratos celebrados NÃO constitui, por si, uma acusação de ilegalidade. Destina-se a triagem e escrutínio público por cidadãos, jornalistas e autoridades competentes.
editorial revisto em 2026-04-26